O Bulletin of the Atomic Scientists ajustou, nesta terça-feira (27), o chamado Relógio do Juízo Final para 85 segundos da meia-noite, a marca mais próxima já registrada. A meia-noite, nesse caso, é uma metáfora para um cenário de catástrofe global causado por ações humanas.
A decisão vem após um ano em que o grupo aponta deterioração do ambiente de segurança internacional e perda de capacidade de cooperação entre potências, em meio a disputas de soma zero. Na avaliação dos cientistas, isso amplia o risco de erros de cálculo e de escaladas difíceis de controlar.
O que pesou no ajuste do relógio
Entre os fatores citados, a ênfase voltou a recair sobre crises com potencial nuclear e seus efeitos indiretos na estabilidade global. O grupo menciona, por exemplo, a guerra Rússia-Ucrânia, tensões recentes entre Índia e Paquistão e preocupações ligadas ao dossiê nuclear do Irã após ações militares de 2025 (segundo o Bulletin, envolvendo EUA e Israel).
Além disso, o Bulletin incluiu no pacote de riscos:
- Mudanças climáticas, com aumento de eventos extremos (secas, ondas de calor e inundações) e críticas à lentidão na redução de emissões (incluindo reprovação a políticas de ampliação de combustíveis fósseis defendidas pelo presidente Donald Trump).
- Biotecnologia, com temor de uso indevido e de lacunas em mecanismos internacionais de prevenção.
- Inteligência artificial, tanto pelo ritmo de adoção quanto pelo risco de integração sem regras claras em sistemas militares, além do papel da IA na desinformação e em cenários de ameaça biológica.
O relógio estava em 89 segundos da meia-noite no ano passado, e agora avançou mais quatro segundos.
O que é (e o que não é) o Relógio do Juízo Final
Criado em 1947 pelo Bulletin (organização fundada em 1945 por cientistas ligados ao Projeto Manhattan), o relógio funciona como um indicador simbólico, não como “previsão” literal do fim do mundo. No pós-Guerra Fria, em 1991, chegou ao ponto mais distante da meia-noite (17 minutos). Nos últimos anos, a escala passou a usar segundos para refletir o que o grupo descreve como aceleração e sobreposição de riscos.
O Bulletin afirma que ainda existe margem para recuar o relógio, mas condiciona isso a medidas concretas: redução de arsenais e riscos nucleares, diretrizes internacionais para IA, acordos multilaterais para ameaças biológicas e ação mais efetiva na agenda climática.