A Suprema Corte do Panamá anulou os contratos que sustentavam a concessão de dois terminais estratégicos nas extremidades do Canal do Panamá (Balboa, no Pacífico, e Cristóbal, no Atlântico), operados pela Panama Ports Company, ligada ao grupo de Hong Kong CK Hutchison. A decisão elevou a pressão sobre a administração portuária em uma área considerada infraestrutura crítica para o comércio global e, por extensão, para a segurança marítima.
O julgamento veio após questionamentos formais e auditorias que apontaram supostas irregularidades na renovação do contrato (incluindo críticas ao processo de extensão firmado em 2021). Entre as alegações, autoridades locais citaram possíveis falhas de pagamento e inconsistências contábeis, com impacto bilionário estimado nas receitas públicas ao longo dos anos. A empresa contesta as acusações e sinaliza que pode buscar medidas legais para reverter o quadro.
No plano internacional, o caso ganhou leitura geopolítica. O Canal do Panamá é rota por onde passa cerca de 5% do comércio marítimo mundial, e a presença de grupos associados a Hong Kong (em meio à rivalidade entre EUA e China) virou tema recorrente em declarações e disputas políticas. A decisão também embaralha uma negociação de grande porte que envolvia a venda de ativos portuários da Hutchison para um consórcio liderado pela BlackRock (com participação da Mediterranean Shipping Company), transação estimada em cerca de US$ 23 bilhões.
O presidente panamenho José Raúl Mulino afirmou que as operações não devem sofrer interrupções e indicou que não há expectativa de demissões durante a transição. Nesse intervalo, a APM Terminals (Maersk) manifestou interesse em assumir temporariamente a gestão dos terminais, enquanto o governo discute os próximos passos e um possível novo processo de licitação. A reação chinesa foi dura, com promessa de defender os interesses de suas empresas.