O Japão deu um passo que pode mudar o equilíbrio da indústria militar no mundo. Ao flexibilizar as regras para exportação de armas letais, Tóquio sinaliza que pretende deixar para trás uma tradição de décadas e assumir um papel mais ativo no fornecimento de equipamentos militares a países aliados.
A mudança tem peso histórico. As restrições começaram em 1967 e foram ampliadas em 1976, dentro da postura pacifista adotada pelo Japão após a Segunda Guerra Mundial. Agora, diante do avanço militar da China, da guerra na Ucrânia e da crescente incerteza sobre o papel dos Estados Unidos na segurança global, o governo japonês vê espaço para reposicionar sua indústria de defesa.
O desafio, porém, será transformar ambição política em capacidade industrial. Durante muitos anos, as empresas japonesas do setor militar tiveram praticamente um único cliente: o próprio governo. Além disso, os gastos de defesa ficaram limitados por muito tempo a cerca de 1% do PIB, o que reduziu investimentos, enfraqueceu cadeias produtivas e afastou companhias privadas do mercado bélico.
Mesmo assim, o Japão tem vantagens importantes. O país conta com engenharia avançada, tradição em produção de precisão e empresas capazes de atuar em áreas como navios, drones, sensores, mísseis e tecnologias de uso dual (civil e militar). Para alguns analistas, setores como o automotivo poderiam até transferir parte de sua capacidade excedente para a fabricação de equipamentos de defesa.
Um exemplo desse novo momento é o interesse internacional pelas fragatas da classe Mogami, produzidas pela Mitsubishi Heavy Industries. A Austrália já fechou um acordo bilionário para adquirir navios desse tipo, enquanto países como Nova Zelândia e Indonésia também demonstraram interesse. Há ainda relatos de que Tóquio poderia facilitar o compartilhamento de projetos navais com Taiwan.
Outro sinal da força tecnológica japonesa veio da empresa norte-americana Anduril, que apresentou em Tóquio um drone avançado feito com componentes japoneses. A demonstração reforçou a ideia de que o Japão pode reduzir a dependência de cadeias de suprimento ligadas à China, algo cada vez mais valorizado por democracias preocupadas com segurança estratégica.
Para que essa transformação avance, o governo japonês terá de liderar o processo. Isso inclui apoiar vendas externas, rever contratos de compras militares, incentivar pesquisa e desenvolvimento em áreas como drones e estimular empresas privadas a entrarem com mais força no setor.
O potencial existe. A dúvida é se Tóquio terá velocidade e vontade política suficientes para transformar o Japão em uma das grandes fábricas militares do mundo livre.