O Cenário: Por Que a Rússia Queria Vender?
Para entendermos a venda do Alasca, precisamos voltar um pouco no tempo, para meados do século XIX. O Império Russo, na época governado pelo Czar Alexandre II, era uma vasta nação que se estendia por dois continentes. O Alasca, conhecido então como América Russa, era uma colônia distante, de difícil acesso e ainda mais difícil de defender.
Vários fatores levaram a Rússia a considerar a venda deste imenso território:
- As Dificuldades Financeiras: A Guerra da Crimeia (1853-1856), um conflito sangrento travado principalmente contra o Império Otomano, a França e o Reino Unido, deixou os cofres russos em uma situação delicada. Manter e proteger uma colônia tão remota como o Alasca era um luxo que o Império já não podia mais bancar. Os custos com administração, defesa e abastecimento eram enormes.
- O Medo de Perder o Território de Graça: Os russos tinham um receio muito pragmático. Olhando para o vizinho Canadá, uma colônia britânica, e para a crescente expansão dos Estados Unidos para o oeste, eles temiam que, em um futuro conflito com o Reino Unido, o Alasca fosse um alvo fácil e acabasse sendo tomado à força. Vender o território para os americanos parecia uma forma inteligente de se antecipar a uma perda inevitável e, de quebra, ainda lucrar com isso.
- A “Febre do Ouro” na Califórnia: A corrida do ouro na Califórnia, iniciada em 1848, trouxe milhares de colonos americanos para a costa oeste. Os russos observavam esse movimento com apreensão, imaginando que, se ouro fosse descoberto no Alasca, uma avalanche de garimpeiros americanos invadiria o território, tornando impossível para a Rússia manter o controle.
A Negociação: Um Bom Negócio ou uma Loucura?
Do lado americano, a figura central foi William H. Seward, o então Secretário de Estado. Seward era um visionário e um fervoroso defensor do expansionismo americano. Ele acreditava que o futuro dos Estados Unidos estava no Pacífico e via a aquisição do Alasca como um passo estratégico fundamental.
As negociações foram conduzidas em segredo e de forma relativamente rápida. O embaixador russo em Washington, Eduard de Stoeckl, e Seward chegaram a um acordo na madrugada de 30 de março de 1867.
O Valor da Transação: Uma Pechincha Histórica
O preço final acordado foi de 7,2 milhões de dólares. Para colocarmos esse valor em perspectiva, vamos fazer uma comparação com os dias de hoje.
- Valores da Época: 7,2 milhões de dólares em 1867.
- Valores Corrigidos: Fazer uma conversão direta é complexo, pois os indicadores econômicos mudaram muito. No entanto, a maioria dos historiadores e economistas estima que o valor, corrigido pela inflação e pelo poder de compra, equivaleria a algo entre 120 e 150 milhões de dólares atuais.
Pode parecer muito dinheiro, mas quando consideramos a vastidão do território adquirido – cerca de 1,7 milhão de quilômetros quadrados – o preço pago foi incrivelmente baixo. Estamos falando de aproximadamente 4,74 dólares por quilômetro quadrado, ou seja, menos de dois centavos de dólar por acre!
Eventos Curiosos e a Reação do Público
A compra do Alasca não foi recebida com aplausos unânimes nos Estados Unidos. Pelo contrário, gerou muita controvérsia e foi alvo de piadas.
- “A Loucura de Seward” e a “Geladeira de Seward”: Muitos políticos, jornalistas e cidadãos comuns consideraram a compra um desperdício de dinheiro público. O Alasca era visto como uma terra estéril, um deserto de gelo e neve sem qualquer valor. A transação foi apelidada pejorativamente de “Seward’s Folly” (A Loucura de Seward) e “Seward’s Icebox” (A Geladeira de Seward). Mal sabiam eles…
- O Cheque e o Atraso no Pagamento: Um detalhe interessante é que a Câmara dos Representantes dos EUA demorou mais de um ano para aprovar o financiamento da compra, em meio a um acalorado debate. O cheque simbólico no valor de 7,2 milhões de dólares, que hoje está em exibição nos Arquivos Nacionais dos EUA, foi finalmente emitido para saldar a dívida.
- A Cerimônia de Transferência: A cerimônia oficial de transferência de soberania ocorreu em Sitka, a então capital da América Russa, em 18 de outubro de 1867. Durante o evento, a bandeira russa, ao ser arriada, ficou presa no mastro. Um marinheiro teve que subir para soltá-la, um pequeno embaraço que alguns interpretaram como um sinal da relutância do território em deixar de ser russo.
A Reviravolta: A Descoberta de Ouro
A percepção pública sobre a compra do Alasca mudou drasticamente cerca de 30 anos depois. Em 1896, foi descoberto ouro na região de Klondike, uma área na fronteira entre o Alasca e o Canadá. Isso desencadeou uma das maiores corridas do ouro da história, atraindo milhares de pessoas e gerando uma riqueza imensa.
De repente, a “Loucura de Seward” passou a ser vista como uma das jogadas mais geniais da história americana. O ouro foi apenas o começo. Ao longo do século XX, foram descobertas no Alasca vastas reservas de petróleo e gás natural, que se tornaram fontes de receita multibilionárias.
Olhando para trás, a venda do Alasca foi, para a Rússia, uma decisão compreensível no seu contexto histórico, mas que se revelou um péssimo negócio a longo prazo. Para os Estados Unidos, foi o oposto: uma aposta arriscada que se pagou de forma espetacular, garantindo recursos naturais valiosíssimos e uma posição estratégica fundamental no Círculo Polar Ártico. É um exemplo fascinante de como a visão e, por que não, um pouco de sorte, podem moldar o destino das nações.